Tem uma frase que não sai da minha cabeça nas últimas semanas — uma daquelas que, quando você escuta, fica ressoando como um sino: “o mercado ignora o absurdo... até que não (ignora).”
E por que isso? Porque 2025 tem sido generoso em decisões políticas e econômicas que, se tivessem sido sequer cogitadas um ano atrás, seriam tratadas como aberrações. Medidas que, num passado recente, fariam os mercados derreterem, hoje passam praticamente batidas. O S&P mal pisca. O Nasdaq continua sua escalada como se nada estivesse acontecendo.
Mas por quanto tempo?
Antes de mergulharmos nos fatos concretos, vale lembrar que dois dos maiores investidores da história não estão apenas discursando sobre a possibilidade de uma grande virada — eles estão se preparando ativamente para ela.
Warren Buffett, tradicionalmente o eterno otimista do capitalismo americano, parece ter assumido o papel de Tio Patinhas, acumulando níveis recordes de caixa na Berkshire Hathaway. Já Ray Dalio, um dos pensadores macro mais respeitados da atualidade, tem reiterado seu movimento rumo a ativos reais — terra, ouro, commodities — numa estratégia clara de proteção contra uma possível crise de confiança no sistema fiscal e monetário dos EUA.
E com esse pano de fundo se torna ainda mais inquietante a passividade com que os mercados vêm reagindo a uma série de eventos que, com um mínimo de perspectiva histórica, simplesmente não fazem sentido dentro da lógica tradicional de precificação de risco.
Vamos aos fatos:
Reintrodução agressiva de tarifas comerciais, com os EUA utilizando barreiras tarifárias não mais como instrumento técnico de proteção, mas como ferramenta explícita de chantagem geopolítica. A mensagem é direta: “ou vocês aceitam nossas condições, ou pagam mais caro para acessar o maior mercado do mundo.” Um rompimento com décadas de uma ordem econômica baseada em previsibilidade e livre comércio.
Ameaça direta de corte de verbas federais à Universidade de Harvard, motivada por divergências ideológicas. Independentemente da posição política, trata-se de uma tentativa clara de instrumentalizar o orçamento público como ferramenta de coerção cultural — algo que, em democracias funcionais, deveria disparar alarmes institucionais sérios.
Avanço do projeto “One Big Beautiful Bill Act” (OBBBA), que propõe cortes profundos em incentivos à energia limpa e um aumento projetado de até US$ 2,8 trilhões no déficit fiscal até 2034. Para quem não lembra, esse projeto foi o estopim da ruptura entre o Trump e o Musk. Um movimento legislativo que vai contra a transição energética global e rompe com a prudência fiscal que, até recentemente, era quase dogma em Washington.
Dívida pública dos EUA crescendo em ritmo exponencial, com o país adicionando um trilhão de dólares a cada cinco meses. Em agosto de 2025, a dívida federal atingiu US$ 37 trilhões, com a relação dívida/PIB já ultrapassando os 119% — e projeções apontando para 124% até o fim do ano. Qualquer país emergente, sob essas condições, já teria enfrentado rebaixamentos em série, não? Aqui? Silêncio.
Demissão da responsável pelos dados de emprego, logo após uma revisão significativa para baixo nos números dos meses anteriores a julho.
Escalada nas pressões públicas de Trump sobre Jerome Powell, com discussões cada vez mais explícitas e constrangedoras. O presidente tem deixado claro que espera que o chairman do Fed atue conforme suas preferências políticas e eleitorais, e não com base nos mandatos de estabilidade monetária e pleno emprego. Trata-se de uma tentativa velada — e por vezes nem tão velada assim — de capturar a política monetária, corroendo um dos últimos bastiões institucionais ainda considerados independentes nos EUA.
Demissão sumária da governadora do Federal Reserve, Lisa Cook, sob a alegação de ter declarado duas residências como principais para obter condições melhores de financiamento. Um caso ainda sem conclusão definitiva, mas que levanta a mesma questão: seria esse um pretexto técnico ou um movimento de interferência política direta no Fed? A hipótese de perseguição ideológica é forte — e, se confirmada, representa uma afronta direta à independência da autoridade monetária americana.
Esses são apenas alguns exemplos. Provavelmente há outros que me escaparam — e, talvez, você mesmo consiga lembrar de mais alguns. Mas o que mais me intriga é que, apesar de todos esses acontecimentos se darem em plena luz do dia, o mercado permanece anestesiado. Vê tudo. Lê tudo. Mas escolhe ignorar.
E aqui estou falando sobre a maior economia do mundo. Os Estados Unidos! Em décadas que acompanho o Brasil, por exemplo, não consigo lembrar de tempos onde tenhamos tanta decisão questionável, para dizer o mínimo, nem no Brasil. E olha que já passamos por muita coisa!
A pergunta que fica é: estamos entrando numa nova era de resiliência, pragmatismo e racionalidade macroeconômica... ou apenas repetindo o velho ciclo da negação? Aquele momento em que todo mundo finge que está tudo bem — até que, de repente, não está mais?
A verdade é que há algo estruturalmente diferente em curso. Vivemos um ambiente de liquidez estruturalmente alta, com inteligência artificial otimizando alocações e uma confiança quase mítica no tal do “Fed put” — a ideia de que, aconteça o que acontecer, os bancos centrais sempre virão ao resgate.
Essa fé cega pode estar nos tornando insensíveis ao risco real — aquele que não aparece no gráfico, mas que está se acumulando silenciosamente, estruturalmente.
Não, isso não é uma previsão de crash iminente. Mas é um alerta. Porque o mercado pode continuar ignorando o absurdo... até que o absurdo se torne impossível de ignorar. E, quando esse momento chega, os ajustes costumam ser rápidos, violentos — e, para muitos, absolutamente inesperados.
De onde virá o risco? Quando acontecerá? É impossível saber. Se soubéssemos, todos já estaríamos posicionados — e, por definição, a crise não ocorreria. A essência das grandes crises é justamente essa: elas vêm de onde ninguém está olhando, nem precificando.
Tirando alguns poucos “loucos” que se posicionam com convicção contra o consenso — e, depois, viram personagens de filmes — a imensa maioria é pega de surpresa.
Será que seremos pegos novamente? Não sei. Mas quando vejo Warren Buffett acumulando caixa e Ray Dalio migrando para ativos reais, fico com uma pergunta martelando na cabeça:
Nesta festa que parece não acabar, talvez valha a pena já ir se posicionando mais perto da porta, não? Porque, afinal de contas, o mercado ignora o absurdo por muito tempo, até que não.
Abraços,
Gustavo Cunha
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Concordo com sua visão. Cenário muito bagunçado, falta um adulto na sala.
O mercado está bem anestesiado. Bom momento para montar proteções.
Muito bom.