👉 Multimercados sangram há quatro anos. O problema não é a Selic alta
Limitações estruturais da indústria tradicional restringem a geração de alpha em um mercado cada vez mais dinâmico, líquido e global
* Artigo publicado originalmente na minha coluna do Valor Investe em 23 de abril de 2026
A principal atividade de um gestor de fundo multimercado ativo é buscar retorno acima do que o mercado entregaria sozinho via índices ou, em termos de mercado, buscar alpha. Simples assim. E para buscar alpha, a regra é quase óbvia: quanto mais mercados, mais ativos, mais estratégias disponíveis, melhor. Toda limitação imposta ao gestor é, no fim do dia, uma limitação imposta à capacidade dele de gerar retorno. E quando olho para a indústria tradicional em 2026, a sensação é de que há muita coisa ali que simplesmente não faz mais sentido como limitação.
Comecemos pelo mais óbvio. Operar só nos dias úteis, em horários específicos, com liquidação em D+2, sendo que o mundo cripto já mostrou há anos que dá para liquidar em segundos, 24/7? Qual gestor, podendo ajustar uma posição no domingo à noite diante de um evento geopolítico, preferiria esperar a segunda-feira? Ninguém. E mesmo assim, a indústria segue operando assim, por pura inércia.
Outro exemplo menos ligado à gestão em si, mas que vai na mesma direcao, o cálculo de cota diário. O investidor aplica, resgata, olha a rentabilidade, tudo com base em uma cota que é calculada uma vez por dia somente, quando no mundo de hoje isso deveria ser online, ao segundo. Não é coincidência que os ETFs vêm ganhando tanto espaço nos últimos anos. No fundo, o investidor está migrando para estruturas mais transparentes (discutível aqui para os fdos ativos, mas…), mais líquidas e com precificação contínua.
Mas a coisa não para por aqui. O gestor hoje está limitado a ações, futuros e opções lineares do mercado tradicional. Cripto poucos acessam pois a oferta de produtos ainda é muito escassa e se limita a alguns tokens (Bitcoin, ethereum e mais uma meia dúzia). E isso é ignorar uma imensidao de ativos que está aí disponível.
Um exemplo são opções binárias, que existem sim em tradfi, mas sobre um numero limitado de ativos. Futuros perpétuos, é outro exemplo. Já movimentam volumes gigantescos nas DEX e CEX cripto, e são uma forma muito mais flexível de montar exposição direcional do que os futuros tradicionais com vencimento, sem a dor de cabeça do rollover a cada três meses.
E prediction markets? No fundo, são uma forma de negociar probabilidades de maneira muito mais direta do que qualquer derivativo que temos na B3 ou na CME. Imagina poder montar uma posição em uma tese macro sobre uma decisão do FED, ou sobre um resultado eleitoral, ou sobre um evento regulatório específico. Isso simplesmente não podia estar no cardápio do gestor tradicional cinco anos atrás. Hoje pode. Se está, são outros quinhentos. Desconheço algum gestor de fundo multimercado brasileiro que hoje use esses instrumentos. Isso faz com que ele tenha menos graus de liberdade e portanto, tenha menos chance de gerar alpha.
Agora, nada disso funciona sem automação. Quem não tem robô de execução rodando em 2026 está na década de 90, sem exagero nenhum. E quando falo de automação, não estou falando só de colocar e tirar ordem. Falo de controle de risco automatizado, com limites dinâmicos, com stops inteligentes, com monitoramento contínuo das correlações do portfólio. Falo de conectividade via API com o máximo de mercados possíveis, centralizados ou descentralizados, executando estratégias definidas pelo gestor sem depender do clique humano em cada ponta.
Escrevi recentemente sobre isso, em um artigo chamado “O bot milionário“, onde contei a experiência de construir do zero um robô operando em prediction markets. Sem ter conhecimento prévio de programação. Dá trabalho. Exige empenho, paciência e uma certa dose de frustração. Mas o ponto central é que se hoje isso é possível, para um indivíduo, rodando de casa, fazer gestão profissional sem isso eh realmente voltar à década de 90.
Em outro artigo, mais antigo, escrevi sobre minha trajetória como trader. Trago isso à tona porque, olhando em perspectiva, o que vejo é uma coisa impressionante: o diferencial entre um trader em uma mesa da Goldman Sachs, ou qquer outro banco e um trader operando sozinho, de casa, nunca foi tão pequeno. Fontes de informação? Democratizadas e em grande parte abertas para consulta. Capacidade de automação? Cabe em um notebook e em algumas APIs bem documentadas. Não precisa mais de um departamento de TI do tamanho de um andar inteiro. Claude Code da Anthropic deu um passo imenso nessa aproximação desses dois mundos.
Em alguns aspectos, arrisco dizer que o trader individual, operando seu próprio dinheiro e com conhecimento de gestão, tem vantagens estruturais grandes hoje sobre os gestores das grandes casas. Menos entraves regulatórios, menos camadas de compliance, menos comitê para aprovar uma exposição em um ativo novo. Consegue acessar mais mercados, mais ativos, em mais geografias, e se adapta muito mais rápido quando o cenário muda. Essa flexibilidade é uma vantagem enorme e que as grandes casas não conseguem replicar sem abrir mão justamente dos entraves regulatórios e da estrutura que as torna grandes. Não é que as mesas de banco e os grandes gestores vão sumir (ao menos no curto prazo, AI pode mudar muito isso mas deixo isso para outra discussão), elas seguem tendo escala, balanço, relacionamento. Mas o gap competitivo se estreitou demais.
Gestão moderna, hoje, não é mais sobre ter o melhor terminal Bloomberg. É sobre acessar a maior quantidade de ativos/oportunidades, ter as melhores APIs conectadas, os melhores modelos rodando em paralelo, e uma arquitetura de decisão que integre tudo isso de forma fluida.
Termino por aqui deixando duas perguntas:
Qual é o preço que pagamos, gestores e investidores, pela segurança e pela estrutura do sistema tradicional? E, principalmente, em que ponto esse custo passa a superar os benefícios?
E por outro lado, o que ele diria/explicaria se descobrisse que o principal ganho, ou perda, do mês do fundo multimercado que voce aplica/gere veio de uma posição em um jogo de basquete da NBA? Ou de uma operação via um protocolo de alavancagem e restaking de cripto? Ou de uma posição sobre quando o Estreito de Ormuz será reaberto?
Seguimos aprendendo e ensinando
Abraços,
Gustavo Cunha
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