O ser humano é acostumado com a obsolescência. A gente envelhece, os trabalhos manuais ficam mais difíceis, e somos substituídos por gente mais nova. Nas guerras napoleônicas, exércitos eram contados por cabeças. Depois vieram as armas, e o número de soldados foi ficando menos imprescindível. O mercado de trabalho seguiu a mesma lógica. Obsolescência é uma curva que a gente conhece de cor.
O que AI traz é uma palavra diferente, e bem mais incômoda: irrelevância. Não é que a gente está ficando ultrapassado. É que, em tese, a capacidade cognitiva de AI já é melhor que a de um adulto na fase mais produtiva, entre 20 e 35 anos. A gente vira passivo numa equação em que sempre foi ativo.
Antes, as empresas precisavam de humanos para gerar lucro. Cada vez mais a gente vê empresas inteiras rodadas por agentes, no campo digital, se autogerindo. Sam Altman fala da primeira empresa de um bilhão de dólares com uma pessoa só. Se isso acontece, vale para empresas e vale também para governos. Se o Estado não precisa mais das pessoas como força produtiva, como é que se organiza essa sociedade?
Obsolescência é envelhecer. Irrelevância é não ser mais necessário. A distância entre as duas palavras é o que AI está abrindo.
E aí entra a pergunta que me afeta como pai. Como preparar nossos filhos? Estou lendo o Nexus, do Harari, e ele aponta três capacidades que oferecem mais resistência à substituição. Não que sejam imunes, mas são as mais difíceis.
Fonte: adaptado de Yuval Noah Harari, “Nexus” (2024).
A primeira, criatividade, é a mais óbvia e a que mais se fala. Original ainda vem de gente. A segunda, fatores psicológicos, também já está bem mapeada. Empatia, escuta, contato humano: difícil de replicar em software. A que me pegou de surpresa foi a terceira. Trabalho manual.
O Harari dá um exemplo simples: hoje você tem máquina de lavar louça, robô aspirador, mil dispositivos. Mas você não consegue ainda chamar os amigos para jantar, fechar a porta quando todo mundo for embora, dormir, e acordar com tudo limpo no dia seguinte. Taça de cristal guardada, vinho recolhido, lixo na rua. A gente chega lá com robôs humanoides? Provavelmente sim, em algum momento. Mas é a fronteira mais lenta de cair, e por isso o trabalho manual continua sendo um alicerce inesperadamente sólido.
Para mim, o ponto novo desse raciocínio é a parte manual. Não estava no meu radar. Criatividade e psicologia já se discute muito. Mão na massa, não. Quem souber fazer continua valendo, e talvez por mais tempo do que a gente imagina.
Fica a reflexão. O que vocês acham? Comentem que seguimos pensando juntos.
Abraços,
Gustavo Cunha
Para quem quiser aprofundar
• Yuval Noah Harari · Nexus (2024)
https://www.amazon.com.br/Nexus-Yuval-Noah-Harari/dp/6555876484
• TechCrunch · MIT estima que 11,7% dos empregos já podem ser automatizados
https://techcrunch.com/2025/12/31/investors-predict-ai-is-coming-for-labor-in-2026
• Nexford · Como AI deve afetar o trabalho até 2030
https://www.nexford.edu/insights/how-will-ai-affect-jobs
• Research.com · 40% dos trabalhadores muito preocupados com AI em 2026
https://research.com/careers/job-automation-risks
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