🎲 Mercados preditivos são “bet”?
Seu avanço está tornando cada vez mais tênue a linha entre aposta, derivativo e informação
Imagine um grupo de pessoas espalhadas pelo mundo apostando, em tempo real, sobre tudo o que vem na cabeça (quem vencerá uma eleição, qual será a inflação de março, se o próximo grande filme da Netflix vai bater recordes de audiência, se o FGC vai pagar os detentores de CDBs do banco Master, etc). Agora imagine que essas apostas estão acontecendo em um ambiente regulado, análogo ao mercado de commodities, em uma bolsa com as mesmas regulações, autorizações e permissões que a B3. Não estamos falando de Las Vegas, submundo crypto ou coisa parecida. Estamos falando de prediction markets. Uma forma regulada de se apostar em praticamente tudo. E dai vem a questão: Seriam esses mercados apenas mais uma forma de aposta, um “bet” disfarçado? Ou há algo mais profundo e transformador em jogo?
Pra voce que está chegando agora nesse tema, as principais plataformas tem um volume superior a US$ 50 bilhões. Número considerável para um mercado que está começando, mas irrisório se considerarmos que o mercado de derivativos do mundo está na casa de dezenas de trilhões de dólares.
O recente enquadramento regulatório que a Kaishi, projeto que conseguiu enquadrar mercados preditivos como commodities nos Estados Unidos e que tem uma brasileira (bilionária) como sócia, conseguiu, classificar seu mercado de atuação não como jogos de azar, sujeitos à regulamentação de gambling, mas como instrumentos financeiros — tais como futuros de moeda e commodities. Esse detalhe regulatório é mais do que um ajuste técnico: ele muda completamente a percepção e o uso desses mercados. Afinal, não é pouca coisa conseguir que a Commodity Futures Trading Commission (CFTC) aceite que predições sobre qualquer evento futuro possa ser tratada como milho, soja ou petróleo.
Mas a grande provocação está na natureza desses mercados. Ao contrário do que ocorre em apostas tradicionais (bets), não há uma “banca” central que lucra com as perdas dos participantes. Nos mercados preditivos, a lógica é peer-to-peer: o ganho de um é, literalmente, o prejuízo de outro. Ou seja, é um jogo de soma zero. Funciona exatamente como o futuro de BRL, juros e café da B3. Isso nos obriga a repensar a terminologia: se não há “casa”, podemos ainda chamar isso de aposta? O que todos fazem quando operam na B3 é aposta? É bet?
Aqui vale uma pausa: talvez algum advogado aqui possa ajudar a interpretar se essa ausência de um ganhador central descaracteriza a natureza de “bet” segundo a regulamentação em vigor no Brasil. Nos USA é assim, mas no Brasil e outros países não sei, apesar de eu achar que se a CFTC se convenceu disso os mesmos argumentos valem para todas as legislações. E isso faz com que o mercado de derivativos do mundo e prediction markets se enquadrem sob o mesmo guarda-chuvas regulatório.
Pegando outro angulo, uma coisa que se discute muito sobre mercados preditivos é a questão de se ele é válido como instrumento de geração e validação de informação.
Isso já é assunto de vários textos académicos e tambem já vem sendo testado por várias iniciativas no mundo. A Polymarket, por exemplo, permite que usuários apostem desde o resultado de eleições até se o Bitcoin vai subir ou cair nos próximos 15 minutos. Sessões de 15 minutos, com contratos ultra-curtos, criam uma dinâmica viciante — e um ambiente que oscila entre price discovery e entretenimento gamificado. Já no Brasil, a Palpitada começa a testar o modelo, buscando incorporar as particularidades do mercado local às predições e abrindo espaço para uma tropicalizacao das discussoes.
Alguns projetos, como uma iniciativa da Paradigma Educação, estão experimentando a ideia de um jornal alimentado por dados desses mercados. A proposta é: não reportar o que foi, mas antecipar o que provavelmente será, com base na inteligência coletiva precificada. Quem não gosta de uma pesquisa de candidatos a eleição? Ou saber a probabilidade do seu time ser campeão nesse fds?
Mas há um ponto importante aqui. Alguns estudos académicos se mostrar ainda céticos quando ao real poder preditivo desses mercados, colocando sua acurácia como dependendo de uma série de variáveis: incentivos, diversidade de participantes, liquidez e ausência de manipulação. Ou seja, não basta colocar “o mercado” para prever algo.
Outra discussão recorrente tem a ver com questões de influência desse mercado à medida que crescem. Serão eles causa ou consequência do que esta por vir? Alguem ganha as eleições porque tem essa probabilidade alta em um mercado preditivo ou isso eh uma consequencia de ele(a) ser mesmo o preferido? Qual o poder de influenciar as nossas opiniões de pesquisas e percentuais?
Dito disso, me parece claro que em 2026 teremos um boom global desses mercados. A decisão da CFTC nos EUA já provoca ondas em outros países. Governos e reguladores observam com atenção, questionando se devem seguir a linha americana — tratando os prediction markets como mercados legítimos, e regulados — ou se os enquadrarão como apostas, sujeitas à regulação dos jogos de azar. O debate está aberto. Teremos B3 lançando futuro de eleições no Brasil? Derivativos sobre os jogos da copa do mundo?
Enquanto isso, mais plataformas emergem ao redor do mundo. Já são mais de 125 mapeadas. Da Europa à América Latina, da Ásia ao ecossistema cripto, a lógica da previsão tokenizada, líquida e aberta ganha tração. O próprio Vitalik Buterin já sugeriu que prediction markets podem ser peças-chave em modelos de governança descentralizada, como formas de capturar expectativas em tempo real e de forma transparente.
Passada a discussão se prediction markets são ou não apostas (que novamente deixo para os advogados resolverem), a pergunta importante é: esses mercados refletem o mundo ou o influenciam? Quando milhares de participantes apostam na vitória de um candidato ou na piora da inflação, isso é apenas um reflexo da realidade ou um esforço para moldá-la? E se a precificação virar manchete? O que era para ser uma predição vira pressão??
E, talvez mais importante: será que mais informação nos aproxima da verdade? Em Nexus, Yuval Harari alerta que a abundância de dados nem sempre leva à verdade — mas à ilusão dela. Em mercados hiperativos, com apostas a cada minuto, estaremos decifrando o mundo ou apenas jogando com sua aparência?
Fica a provocação.
Porque talvez a pergunta não seja se prediction markets são apostas. Talvez seja como vamos utilizá-los de um modo a nos prover informações coletivas de uma maneira organizada. A ver.
Abcs,
Gustavo Cunha
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Muito legal Cunha. O Harari costuma comparar informação com comida porque disponibilidade não é sinônimo de benefício. Assim como nem todo alimento nutre, nem toda informação ajuda a entender melhor o mundo. Parte dela só alimenta ansiedade, viés ou distração. E do mesmo jeito que o excesso de comida faz mal ao corpo, o excesso de informação pode confundir, cansar e prejudicar o julgamento.