🔄 A reprecificação da inteligência
A migração de valor provocada pela inteligência artificial não é linear — e pode estar apenas começando.
Todos que têm acompanhado o que está acontecendo em inteligência artificial (AI) nas últimas semanas provavelmente sentem algum nível de desconforto. Não necessariamente medo — mas a sensação clara de que algo estrutural está mudando. Rápido e intenso.
O que segue é uma continuidade da reflexão que comecei em o incomodo da abundância.
Imagino o desconforto em que hoje estão os assessores de grandes fortunas — as pessoas que “detêm” o conhecimento necessário para aconselhar milionários e bilionários sobre onde investir. E não apenas eles. Pense nos gerentes de nível médio das grandes consultorias, nos médicos cuja interpretação de exames começa a ser auxiliada — ou questionada — por algoritmos, nos advogados que veem contratos complexos serem analisados em segundos por modelos de linguagem, nos corretores de imóveis diante de plataformas que precificam bairros em tempo real.
Isso não ocorre porque perderam capacidade técnica ou repertório analítico. O desconforto nasce porque a base sobre a qual essa autoridade foi construída — escassez de informação e de capacidade cognitiva — está sendo redesenhada. Quando a inteligência deixa de ser diferencial e se torna infraestrutura, o valor deixa de estar apenas no saber e passa a estar no julgamento, na responsabilidade, na confiança e na relação construída ao longo do tempo.
Lembrei agora do artigo que escrevi no inicio de 2023 e está mais válido do que nunca: Quando tudo virar commodity, o que restará?
Bem, se você não tem acompanhado o que tem acontecido nas últimas semanas, aqui vão alguns movimentos de ações nesse início de ano: Gartner (-41%), Accenture (-26%), IBM (-24%), Salesforce (-30%), Visa e Mastercard (-12%), Robinhood (-34%), JPMorgan (-7%).
Do lado dos que sobem: Seagate (+45%), Moderna (+70%), Bunge (+37%), Lockheed (+37%).
Movimento que o Claude me descreveu como migração de “bits” para “átomos” — ou seja, empresas ligadas a hardware (energia, capacidade computacional, equipamentos) subindo com força, enquanto muitas de software e serviços vêm sofrendo.
O conceito por trás disso tem sido chamado de AI fear.
Mas talvez não seja apenas medo. Talvez seja transição.
O que posso dizer, após ter testado o Claude code intensamente nas últimas semanas, é que realmente não há como não reavaliar o valor que essas empresas — e muitas outras — agregam. Alguns modelos de negócio parecem mais frágeis. Outros, paradoxalmente, podem emergir mais fortes.
Li recentemente que, até a terceira semana de fevereiro de 2026, apenas 0,4% da população humana havia testado o Claude Code. Ou seja: estamos discutindo impactos globais baseados em uma adoção ainda embrionária.
E isso é fundamental.
Porque a mudança não é linear. Não é simultânea. Não é homogênea.
Ela depende de regulação. Depende de infraestrutura. Depende da capacidade das empresas de adaptar seus modelos atuais. E, talvez mais importante, depende do tempo humano de adaptação (será?). Nós não mudamos da noite para o dia. Organizações também não.
É aqui que entra um ponto que me parece cada vez mais central: em um mundo onde inteligência se torna abundante, relacionamento pode se tornar a fonte escassa.
A Citrini Research em um artigo que viralizou essa semana traz que nunca antes na história humana tivemos abundância de capacidade cognitiva. Sempre foi um recurso limitado. Agora, pela primeira vez, parecemos caminhar para abundância.
Se inteligência vira commodity, o que passa a diferenciar?
Marca? Comunidade? Confiança? Proximidade com o cliente?
Consultorias podem ter parte de seu trabalho automatizado. Mas confiança estratégica não se constrói apenas com output técnico. Empresas de SaaS podem ter suas funcionalidades replicadas. Mas comunidades de usuários engajadas não se replicam com um prompt.
Bancos podem ser desintermediados em partes. Mas confiança institucional, relacionamento, acesso a capital e regulação continuam sendo barreiras reais.
E aqui está um ponto otimista, ao menos sob o prisma de nos dar tempo para nos adaptarmos: os modelos atuais não desaparecem simplesmente. Eles se transformam. Adaptam-se. Incorporam AI. Redefinem pricing. Reconstroem proposta de valor.
A reprecificação que estamos vendo é violenta porque o mercado antecipa extremos. Mas a realidade costuma ser mais gradual.
Enquanto isso, setores diretamente ligados à infraestrutura dessa transformação — AI, energia, capacidade computacional — vêm alcançando valuations astronômicos. O S&P 500 está próximo das máximas, mas cada vez mais concentrado. Isso cria riscos, sim. Mas também mostra onde o capital está apostando no novo ciclo.
A pergunta então não é apenas “onde investir?”, mas “em que tipo de vantagem competitiva investir?”.
Talvez o “safe” não esteja apenas no setor, mas no modelo. Empresas com caixa sólido, base de clientes fiel, comunidade ativa e capacidade real de adaptação tendem a atravessar melhor períodos de disrupção. Quem lembra da Amazon como vendedora de livros online?
Outro ponto macro importante: a redução de certos postos de trabalho pode vir acompanhada de um aumento significativo de produtividade e, potencialmente, de empreendedorismo. Cada grande revolução tecnológica da história gerou ansiedade inicial e expansão posterior de possibilidades. Cathy Wood da Ark invest aposta nisso.
Regulação também tende a entrar no jogo — e isso desacelera, organiza e redistribui impactos. Não é uma corrida sem regras.
O mundo está mudando. Sim. A uma velocidade cada vez maior. Verdade. Mas não está colapsando.
Talvez estejamos menos diante de uma destruição generalizada e mais diante de uma redistribuição profunda de valor. A própria estabilidade recente do S&P, apesar da rotação violenta por baixo da superfície, sugere exatamente isso: o capital não desapareceu — ele está se realocando.
Termino com algumas perguntas mais objetivas:
➡️ Estamos avaliando apenas quem pode ser substituído — ou também quem pode se reinventar?
➡️ Estamos olhando apenas para tecnologia — ou também para comunidade, marca e confiança?
➡️ Estamos reagindo ao medo — ou construindo posição para o próximo ciclo?
E outras, talvez mais estruturais:
➡️ Em um cenário de abundância cognitiva, o que realmente mantém valor?
➡️ Se a “inteligência” migra parcialmente dos humanos para as máquinas, como se reorganiza o sistema financeiro? Agentes autônomos tenderão a escolher caminhos mais racionais que nós? DeFi seria uma consequência natural desse movimento?
➡️ O quão próximos estamos de produtos verdadeiramente agent-first? E como estruturar um business para esse novo ambiente?
Talvez este seja o principal ponto: em um mundo onde a inteligência se torna abundante, o diferencial volta a ser aquilo que não escala com facilidade — julgamento, responsabilidade, reputação, comunidade.
Ou, dito de forma mais simples: quanto mais automatizado o mundo fica, mais valioso se torna o que é profundamente humano.🤔
Keep safe.
Abcs,
Gustavo Cunha
* Artigo publicado originalmente na minha coluna do Valor Investe em 26 de fevereiro de 2026
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