Você já parou para pensar que, em crise, mercado tradicional e cripto começam a se parecer mais do que gostariam de admitir?
Há alguns dias aconteceu algo em DeFi que, para mim, eh mais do que mais um exploit na timeline. Foi um ponto de inflexão. E a resposta que apareceu, essa iniciativa que estão chamando de DeFi United, merece uma leitura mais calma do que a que vi circulando por aí.
A pergunta que quero deixar logo de saída eh essa:
Isso não tem cara de um FGC, aquele Fundo Garantidor de Créditos que temos aqui no Brasil, ou do FDIC americano?
Vem comigo que o paralelo eh ainda mais forte do que parece.
O que aconteceu
Para quem não acompanhou de perto, vale uma reconstrução rápida.
No sábado da semana passada, dia 18 de abril, um atacante explorou uma vulnerabilidade na ponte cross-chain da KelpDAO, que usava LayerZero em uma configuração de 1-of-1 DVN, praticamente um ponto único de falha. O resultado foi a emissão de cerca de 116 mil rsETH sem lastro, algo em torno de USD 290 milhões. Já virou o maior exploit de DeFi do ano.
Mas o detalhe mais interessante não eh o tamanho do roubo, eh o que o atacante fez em seguida.
Em vez de vender os tokens no mercado, ele depositou quase 90 mil rsETH como colateral na Aave e pegou emprestado cerca de USD 190 milhões em ETH e outros ativos.
Ou seja: usou um token fake como garantia para extrair liquidez real do maior protocolo de empréstimo de DeFi. Uma jogada cirúrgica, que transformou um problema da KelpDAO em um problema de toda a infraestrutura de crédito em DeFi.
O resultado foi previsível. Pânico. A Aave viu entre 12 e 15 bilhões de dólares saírem do protocolo nos dias seguintes. Uma clássica corrida bancária, só que on-chain, transparente, em tempo real, para todo mundo ver. E com direito a manchetes dizendo que “DeFi morreu” e que “just use Aave acabou”.
Até ontem, usuários ainda não conseguiam sacar suas posições. Uma crise sistêmica enorme se formando dentro do DeFi.
A resposta: o que eh o DeFi United
Aí entra a parte que realmente me chamou a atenção.
Depois de quase uma semana de discussão e de apagar incêndio, o Stani Kulechov, um dos fundadores da Aave, articulou algo diferente. Chamou de DeFi United: um fundo emergencial coordenado com outros players do ecossistema para cobrir o déficit do rsETH.
Em bom português, passaram o chapéu. E olha quem colocou dinheiro dentro logo nos primeiros dias:
Lido Finance, com até 2.500 stETH
EtherFi, propondo 5.000 ETH
O próprio Stani, colocando 5.000 ETH do bolso
Golem Foundation, com 1.000 ETH
Mantle Treasury, propondo empréstimo de 30.000 ETH
LayerZero, que também estava envolvida no problema
Além de Arbitrum, Ethena, Frax, Ink Foundation, Tydro
Em resumo: os principais protocolos e fundações de DeFi se uniram, voluntariamente, para tapar um buraco que tecnicamente nem eh deles.
Nenhum foi obrigado. Não tem regulador mandando. Não tem lei exigindo.
E por que estão fazendo então? A resposta eh simples e, ao mesmo tempo, eh o coração desse artigo:
Porque entenderam que, se a Aave quebrar ou sofrer um baita bad debt, o efeito cascata pode derrubar meio ecossistema junto.
O DeFi olhou para o próprio umbigo e percebeu: tem um risco sistêmico aqui, a gente tem que se unir, vamos pulverizar esse problema entre todo mundo.
A comparação que eu queria fazer desde o começo
Isso não eh exatamente o que o FGC faz no Brasil e o FDIC faz nos Estados Unidos?
Pensa comigo.
O FDIC foi criado em 1933, depois da Grande Depressão, para evitar corridas bancárias sistêmicas. Quando um banco americano quebra, o FDIC cobre os depósitos até um limite (atualmente USD 250 mil por conta), e com isso mantem a confiança no sistema inteiro.
O FGC brasileiro segue a mesma lógica, cobrindo até R$ 250 mil por CPF por instituição.
Em ambos os casos, quem financia eh o próprio setor. Os bancos contribuem mensalmente para o fundo. E funciona porque todos entendem algo fundamental:
Um banco isolado pode quebrar sem grande tragédia. Mas se a quebra dele gerar pânico e derrubar outros bancos, o custo sistêmico eh infinitamente maior do que o custo de segurar aquele banco específico.
Ou seja: eu sou seu concorrente, até o dia em que o negócio vira sistêmico. Aí a gente tem que se ajustar, juntos, para não ter problema todo mundo.
Essa eh a essência do FGC e do FDIC. Uma estrutura coletiva, financiada pelos próprios participantes, para proteger o sistema como um todo. Eh assim que o sistema bancário resolveu essa questão no mundo inteiro.
Agora volta para o DeFi United.
A lógica eh exatamente a mesma.
Lido e EtherFi competem direto no mercado de liquid staking. EtherFi e Ethena disputam mindshare no DeFi todo dia. Frax e MakerDAO se digladiam no mercado de stablecoins. E mesmo assim, todos sentaram na mesma mesa para tapar o buraco.
Porque entenderam, na prática, a mesma lição que o mercado financeiro tradicional aprendeu à custa de décadas de crises.
O ponto que eu considero o mais importante
E aqui chego onde eu queria desde o começo desse texto.
O que me chamou atenção nessa solução não eh ela em si, eh o fato de que ela já poderia ter sido montada há muito tempo.
Existe um discurso em DeFi, às vezes meio soberbo, de que o mercado cripto vai reinventar tudo do zero. E em algumas frentes, isso faz sentido. Há soluções que só podem existir em blockchain: streaming de dinheiro, AMMs, composability, exchanges descentralizadas rodando 24/7 sem contraparte central, RWAs tokenizados. Nesses casos, falamos em ruptura real.
Mas em muitas outras frentes, o que DeFi eh obrigado a encarar agora pela primeira vez, o mercado financeiro tradicional já enfrentou décadas atrás.
Risco sistêmico. Corrida bancária. Contágio. Moral hazard. Garantia de depósitos. Lender of last resort. Mecanismos de resolução bancária.
Nada disso eh novo. Tudo isso foi discutido, errado, quebrado, reconstruído e refinado ao longo de quase um século.
O que seria burrice eh DeFi fingir que precisa descobrir tudo sozinho. Não precisa.
O inteligente eh pegar o que tradfi já resolveu, entender a lógica por trás, e adaptar para o ambiente descentralizado, aproveitando as vantagens que a blockchain oferece: transparência, auditabilidade em tempo real, execução automática via smart contract, sem fronteiras geográficas.
Não há vergonha nenhuma em copiar o que já funciona. Pelo contrário, eh o caminho mais rápido e mais seguro.
O caso do DeFi United eh exatamente isso, só que feito de um jeito descontrolado, apagando incêndio quase uma semana depois do ocorrido. Podia ter sido organizado e implementado bem antes, com calma, de forma estruturada. Não foi. Agora que o estrago aconteceu eh que estão correndo atrás.
Como seria um FGC on-chain bem feito
Imagina uma estrutura assim, desenhada com calma, em vez de montada no susto:
Contribuições mandatórias dos protocolos participantes, proporcionais ao TVL e ao perfil de risco de cada um
Regras codificadas em smart contract, sem discricionariedade política ou lentidão burocrática
Gatilhos automáticos de acionamento quando determinadas condições forem atendidas (perda de peg, depeg de colateral, exploit confirmado)
Carteira pública e auditável em tempo real, que qualquer um pode verificar a qualquer momento
Quem quer o seguro, deposita também — a lógica eh simples, se você quer estar coberto, contribui para o pool
Alguma forma de governança para os casos não previstos, eventualmente via DAO, embora eu confesse que ainda tenho muitas ressalvas sobre DAOs, que considero um experimento enorme e que ainda precisa provar seu valor na prática
Eh possível? Tecnicamente, sim.
Seria melhor do que o modelo tradicional em vários aspectos? Quase certamente sim. Principalmente em transparência, velocidade de acionamento e ausência de risco de captura regulatória.
Faltaria o quê? O elemento compulsório. E eh aí que mora o principal desafio: como criar obrigatoriedade em um ambiente descentralizado por princípio? Talvez o caminho seja tornar a adesão voluntária mas economicamente vantajosa, de modo que não entrar saia mais caro do que contribuir. Algo como um selo de qualidade que usuários passariam a exigir.
O que observar daqui para frente
O DeFi United, como está hoje, eh a versão 1.0. Improvisada, voluntária, montada no calor do momento. Pode virar estrutura permanente, como pode morrer junto com a crise atual assim que tudo se acalmar.
Se morrer, eh uma pena. Teremos resolvido o incêndio desse caso específico, mas sem aprender a lição de construir algo robusto para o próximo. E vai ter próximo, ninguém tem dúvida disso.
Se virar estrutura permanente, pode ser uma das soluções mais importantes que DeFi vai construir nos próximos anos. Algo que traga para quem aplica no ecossistema uma segurança adicional, mais alinhada com o que temos hoje no mercado tradicional, sem perder as vantagens do ambiente descentralizado.
Algumas perguntas que merecem reflexão:
Esse modelo se formaliza ou fica só como resposta ad-hoc de crise?
Como fica o moral hazard? Se os usuários passarem a esperar que sempre serão salvos, isso muda os incentivos de quem corre risco e de quem deposita.
E quando o próximo buraco for maior que a soma das tesourarias dos protocolos? Quem paga?
Fechamento
A mensagem que fica eh simples.
DeFi tem muita ruptura, muita inovação que só ela pode trazer. Mas tem muita coisa que já está resolvida em tradfi. Vamos copiar e melhorar.
Copiar o que tradfi levou décadas construindo e fazer melhor, aproveitando as vantagens do ambiente descentralizado, não eh perder originalidade. Eh ser esperto.
Bancos são concorrentes até o dia em que aparece um risco sistêmico, e aí viram aliados. Protocolos de DeFi acabaram de descobrir, na prática, a mesma verdade. E o DeFi United, se sobreviver ao momento de crise e virar algo permanente, pode muito bem ser a semente do que, daqui a alguns anos, vamos chamar simplesmente de FGC do cripto.
Se virar, ótimo. Se não virar, bom, essa solução estava servida faz tempo e o ecossistema vai ter perdido mais uma oportunidade.
A pergunta que fica:
Você acha que DeFi vai transformar esse tipo de coordenação em estrutura permanente, ou vai continuar dependendo de articulação no calor do momento, toda vez que der ruim?
Conta aí nos comentários. 👇
Um abraço,
Gustavo Cunha
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